O Rito de Cerneau, um Rito maçónico pouco conhecido

As origens do Rito de Cerneau

Recordamos que, em 1761, Étienne Morin (1795 ou 1717-1771) recebeu uma patente que o autorizava a difundir nas Antilhas Francesas o Rito de Perfeição em 25 graus (ou Ordem do Real Segredo) e que, em 1762, embarcou para São Domingos, onde iniciou a sua missão. Em 1766, o conde de Clermont, Grão-Mestre da Grande Loja de França, descobriu a existência desta patente, que tinha sido concedida em seu nome mas sem o seu conhecimento, e revogou-a, anulando assim os poderes de Morin. Este, contudo, prosseguiu a sua obra. Em 1768, encontrou um Irmão chamado Henry Francken (~1720-1795), inglês de origem holandesa, a quem nomeou Deputado Grande Inspetor. Francken traduziu os rituais para inglês e, após a morte de Morin em 1771, difundiu o Rito de Perfeição no continente americano, chegando até Nova Iorque. Antes de morrer em 1795, Francken terá passado o testemunho ao conde Alexandre de Grasse-Tilly (1765-1845), que chegara às Antilhas em 1789.

Em 1797, um grupo de maçons americanos e franceses, incluindo Grasse-Tilly, fundou em Charleston um Soberano Consistório dos Príncipes do Real Segredo do Rito em 25 graus. Por volta de 1800, surgiram as Constituições de 1786, alegadamente redigidas por Frederico II da Prússia, que consagravam os 33 graus do Rito Escocês Antigo e Aceite. Em 1801, foi criado em Charleston o primeiro Supremo Conselho do mundo deste Rito. O segundo, o Supremo Conselho para as Ilhas Francesas da América, foi fundado em 1802 por Grasse-Tilly, que, ao regressar a França, criou também o Supremo Conselho de França em 1804. Em 1806, um membro do Supremo Conselho para as Ilhas Francesas da América, Antoine Bideaud, conferiu de forma privada e irregular o 33.º grau a três Irmãos que, em 1812, criaram em Nova Iorque um Sublime Consistório do 32.º grau do Rito Escocês Antigo e Aceite, sem o conhecimento do Supremo Conselho de Charleston.

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Joseph Cerneau

Foi muito depois da morte de Morin que Joseph Cerneau (1763-1840~1845), joalheiro francês, se instalou em São Domingos, onde subiu os degraus do Rito de Perfeição. A Revolução Haitiana de 1802-1803 forçou-o a refugiar-se primeiro em Cuba, onde recebeu, em 1806, uma patente de Deputado Grande Inspetor que o autorizava a criar um Príncipe do Real Segredo (25.º e último grau) por ano. Passando para o continente americano, acabou por se instalar em Nova Iorque, onde fundou, em 1807, um Soberano Consistório dos Príncipes do Real Segredo para a América (Rito em 25 graus).

Com os seus 25 graus, o Consistório de Cerneau não podia rivalizar com o Rito Escocês Antigo e Aceite. Em 1813, sem que se saiba de quem recebeu o 33.º grau, Cerneau transformou o seu Consistório num Supremo Conselho para os Estados Unidos e conseguiu ser reconhecido pelo Grande Oriente de França.

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Conflito entre Supremos Conselhos

Em visita a Nova Iorque em 1813, Emanuel De la Motta (1761-1821), Grande Tesoureiro do Supremo Conselho de Charleston, surpreendeu-se ao encontrar dois organismos que reivindicavam o Rito Escocês Antigo e Aceite, sendo que um deles se intitulava Supremo Conselho para a totalidade dos Estados Unidos. O Supremo Conselho de Charleston preocupou-se com o aparecimento destes organismos de legitimidade duvidosa e encarregou De La Motta de investigar.

Cerneau recusou responder às perguntas de De La Motta, negando-lhe o direito de o interrogar. De La Motta reconheceu então a legitimidade do Sublime Consistório formado pelos três Irmãos iniciados por Antoine Bideaud e declarou irregular o Supremo Conselho de Cerneau. No mesmo ano de 1813, o Supremo Conselho de Charleston criou em Nova Iorque o Supremo Conselho para a Jurisdição Norte dos Estados Unidos, reservando para si a jurisdição sobre o Sul do país. O confronto com o Supremo Conselho de Cerneau era inevitável e De La Motta pronunciou mesmo a exclusão de Cerneau da maçonaria universal.

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A sede do Supremo Conselho de Charleston no século XIX

Pode questionar-se qual foi a verdadeira natureza deste conflito, para além das simples questões de regularidade e reconhecimento. Parece que o problema era de ordem religiosa: o Supremo Conselho de Charleston contava entre os seus fundadores e membros vários judeus, a começar por Emanuel De La Motta, enquanto o Rito de Cerneau era aberto apenas a cristãos, e mais particularmente a católicos. Numa carta de 1823, Cerneau exibia, aliás, abertamente posições que hoje classificaríamos como antissemitas. O conflito parece ter girado, acima de tudo, em torno da universalidade da maçonaria, que transcende ou não as diferentes religiões e confissões.

Cerneau perdeu a contenda e, desconsiderado, caiu na miséria. Finalmente, em 1831, a Grande Loja de Nova Iorque pagou-lhe, por compaixão, um bilhete para França. Cerneau não teve, a partir daí, qualquer atividade maçónica e morreu em França, esquecido por todos, entre 1840 e 1845. A data exata é desconhecida.

Mas a história não ficaria por aqui. A chegada a Nova Iorque do conde de Saint-Laurent (1774-1857) em 1831 daria aos restos do Supremo Conselho de Cerneau um segundo fôlego. Ele próprio um 33.º grau reconhecido tanto em Charleston como em Paris, Saint-Laurent intitulava-se Soberano Grande Comendador de um Supremo Conselho de que ninguém tinha ouvido falar e que teria jurisdição sobre todas as possessões espanholas na América, nas Antilhas e até nas Filipinas. E, sobretudo, detinha o original latino presumido das Constituições de 1786, das quais era provavelmente o autor. Reorganizou os restos do Supremo Conselho de Cerneau e batizou a nova estrutura de Supremo Conselho Unido para o Hemisfério Ocidental do 33.º e último Grau do Rito Escocês Antigo e Aceite. O conflito com o Supremo Conselho da Jurisdição Norte recomeçou e só parou temporariamente com a decisão tomada em 1832 por Saint-Laurent de fundir o seu próprio Supremo Conselho com o Supremo Conselho da Jurisdição Norte, antes de partir ele próprio para França.

Como nem todos aceitaram a fusão, membros do Supremo Conselho de Cerneau continuaram a mantê-lo vivo como estrutura independente. O conflito recrudesceu e, desta vez, as Grandes Lojas dos estados americanos envolveram-se, radiando todos os seus membros que frequentavam as Oficinas do Rito de Cerneau. O conflito terminou em 1867, quando os últimos fiéis do Rito de Cerneau aceitaram juntar-se ao Supremo Conselho da Jurisdição Norte.

Despertar e sobrevivência do Rito de Cerneau

Em 1868, Harry J. Seymour, excluído do Supremo Conselho de Cerneau em 1865 e introdutor do Rito Antigo e Primitivo (Rito de Memphis) nos Estados Unidos, reconstituiu um Supremo Conselho do Rito de Cerneau, que vendeu por volta de 1880 a William H. Peckham e que funcionou durante cerca de vinte anos. Seymour transmitiu também o Rito a John Yarker (1833-1913), o introdutor do Rito de Memphis na Grã-Bretanha.

No mesmo momento, Robert B. Folger (1803-1892), um antigo membro do Supremo Conselho de Cerneau que tinha assinado o acordo de fusão com o Supremo Conselho da Jurisdição Norte em 1867, declarou o acordo inválido e reconstituiu, em 1881, outro Supremo Conselho com o Irmão Thompson. O Supremo Conselho Folger-Thompson funcionou até à morte do seu último Soberano Grande Comendador em 1919 e extinguiu-se aparentemente nos Estados Unidos em 1925, embora alguns documentos sugiram que talvez tenha existido até 1951.

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Robert B. Folger

Foi finalmente na esfera do Rito de Memphis-Misraïm que o Rito de Cerneau entrou em França, onde ainda é praticado hoje. Já vimos o papel desempenhado por Harry Seymour em 1878 no despertar do Rito de Cerneau, que também tinha transmitido a John Yarker. Mas foi Jean Bricaud (1881-1934), que se tornou Grão-Mestre de Memphis-Misraïm em 1914, quem o introduziu em França. Não tendo conseguido obter uma Patente do Rito Escocês Antigo e Aceite junto do Supremo Conselho de França, foi ao Supremo Conselho Folger-Thompson que recorreu para a obter.

Uma história movimentada

Todos os Ritos maçónicos tiveram uma história mais ou menos movimentada, mas o Rito de Cerneau supera-os a todos. Poucos ritos maçónicos suscitaram tantas polémicas e paixão e, sobretudo, poucos tiveram tal capacidade de renascer das cinzas, após pelo menos três desaparecimentos oficiais. A história movimentada deste Rito, rica em reviravoltas, é sem dúvida uma das mais difíceis de descrever. Perdemo-nos mais de uma vez no labirinto de informações por vezes contraditórias e esperamos ter cumprido esta tarefa com a maior clareza possível.

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