A origem do Pavimento Mosaico e do seu nome
Designado como “Square Pavement” ou “Mosaic Pavement” em inglês, o Pavimento Mosaico aparece nos antigos catecismos maçónicos escoceses e ingleses. A menção mais antiga encontra-se nos manuscritos “Edinburgh Register House” (1696) e “Chetwode Crawley” (1700), que descrevem os usos da Maçonaria da Palavra de Pedreiro em voga na Escócia no século XVII. Encontramo-lo depois em vários manuscritos ou revelações inglesas, escocesas e irlandesas (“Dumfries n°4”, cerca de 1710; o “Trinity College, Dublin”, 1711; “A Mason’s Confession”, cerca de 1727; “Wilkinson”, 1727; “Masonry Dissected”, 1730…).
Estes documentos não descrevem o que é o Pavimento Mosaico nem a sua utilidade, com exceção de dois deles, que nos dão a chave deste símbolo: “A Mason’s Confession” e o manuscrito “Wilkinson”. Segundo estes dois documentos (o primeiro escocês, o segundo inglês), o Pavimento Mosaico serve ao Mestre para traçar os seus planos. Já recordámos no nosso artigo anterior sobre o Tapete de Loja que, originalmente, os planos eram traçados diretamente no chão, no pavimento do local onde trabalhavam os Maçons. As afirmações de “A Mason’s Confession” e do manuscrito “Wilkinson” apenas especificam, portanto, este uso: se o Pavimento Mosaico é quadriculado, é porque o traçado podia ser assim facilmente transposto para uma escala maior, com a ajuda de uma grelha mais ampla. O Pavimento Mosaico era, portanto, na sua origem, uma ferramenta operativa e não um motivo simbólico ou decorativo.
Mas porquê este nome de Pavimento Mosaico? É preciso notar, antes de mais, que a designação é relativamente tardia, uma vez que os documentos antigos falam apenas em “Square Pavement”, que podemos traduzir por Pavimento Quadrado ou Pavimento de esquadro. O nome “Mosaick [sic] Pavement” só aparece em 1727 no “Wilkinson”, que será seguido pelo “Masonry Dissected” de 1730. Sendo estes dois documentos claramente oriundos da tradição da Grande Loja de 1717 (ou mais provavelmente 1721), podemos deduzir que este termo provém da tradição dos “Modernos”.
Mas o que significa? Será que “Mosaico” é aqui tomado no sentido do que é relativo à Lei de Moisés? Parece vir muito mais do latim medieval “mosaicus”, transformação do latim clássico “musivus”, ele próprio derivado do grego “mouseios”, relativo às Musas, isto é, as “divindades” que regem as diferentes Artes. Não é de estranhar que este termo tenha sido adotado pela maçonaria moderna, nascida numa época em que as elites intelectuais eram nutridas pela Antiguidade greco-romana.
O significado do Pavimento Mosaico
Na maçonaria moderna, o Pavimento Mosaico perdeu o seu sentido de ferramenta operativa para manter apenas uma significação simbólica. Numa data que não conseguimos determinar com precisão, assumiu a forma de um tabuleiro de xadrez, onde alternam casas pretas e casas brancas. Torna-se assim uma imagem do mundo criado, marcado pela dualidade. O símbolo do Pavimento Mosaico junta-se, portanto, aos outros símbolos de dualidade na Loja (as duas Colunas, o Sol e a Lua, o Meio-dia e o Septentrião), com a diferença de que contém em si mesmo os dois polos, inextricavelmente ligados. Toda a complexidade do real exprime-se nele: a luz e as trevas, a vida e a morte, o bem e o mal, a progressão e a regressão…
Esta interpenetração do preto e do branco não deixa de lembrar o símbolo chinês do Yin e do Yang, que pretende também dar conta da realidade do mundo em termos de dualidade. Mas o modelo chinês é todo arredondado, retratando a alternância do preto e do branco como um movimento incessante, semelhante ao da água ou do vento, no qual é preciso procurar constantemente o equilíbrio, através do movimento.
O Pavimento Mosaico é mais radical na sua representação da dualidade. As casas são bem delimitadas e parecem mais refratárias ao movimento. É o observador que terá de fazer uma escolha, para traçar o seu próprio caminho e conseguir sublimar a dualidade através do princípio Ternário.
Se o Pavimento Mosaico representa bem o mundo, na sua dualidade permanente, podemos perguntar-nos por que é quase proibido caminhar sobre ele na maçonaria continental? Não haverá aqui uma forma de incoerência? Vivemos neste mundo onde estamos submetidos à dualidade: por que deveríamos, na Loja, considerar a representação do mundo como sagrada em si mesma? O trabalho do maçom é sacralizar o mundo da dualidade descobrindo o terceiro termo e, para o fazer, deve penetrar neste mundo, inclusive ritualmente.
Quantas casas deve ter o Pavimento Mosaico?
O número de casas do Pavimento Mosaico será, obviamente, portador de uma significação simbólica, e diferentes opções podem ser consideradas. Muitas Lojas partilham os mesmos templos, que são frequentemente organizados de forma inamovível. É difícil, portanto, em certos casos, escolher o Pavimento Mosaico que se deseja utilizar. Mas se o Pavimento Mosaico estiver representado no Tapete de Loja, o que é frequentemente o caso, as Lojas são então livres de optar pela forma que faz mais sentido para elas.
Quais são as diferentes opções? Conhecemos três, que têm todas uma significação pertinente. Não se excluem e podem até ser utilizadas as três pela mesma Loja, como constatará.
A primeira opção é a mais simples a nível simbólico: 8 x 8 = 64 casas. 64 é o cubo de 4, que é o número do mundo criado, caracterizado pelos Quatro Elementos, os Quatro Pontos Cardeais, as Quatro Estações, etc. Cubo de 4, o 64 representa então o mundo em três dimensões, o mundo material que conhecemos e no qual evoluímos. O Pavimento Mosaico de 64 casas é, portanto, puramente descritivo: simboliza o mundo tal como o percebemos, sem o interpretar. Seria sensato fazê-lo figurar no Tapete de Loja do primeiro grau: o Aprendiz toma consciência de si mesmo e do mundo na sua dualidade, mas ainda não possui os conhecimentos geométricos que lhe permitiriam compreender o mundo e agir sobre ele.
As duas opções seguintes pressupõem, por sua vez, um conhecimento geométrico.
O Pavimento Mosaico construído segundo o Número de Ouro: 5 x 8 = 40 casas. Sendo o Número de Ouro uma proporção, outros modelos podem ser propostos, que mantêm a mesma proporção e se encontram na sequência de Fibonacci (0-1-1-2-3-5-8-13-21-34-33-55-89…): podemos, portanto, considerar um Pavimento de 3 x 5, 8 x 13, 13 x 21, etc. O interesse do Pavimento 5 x 8 é que resulta em 40 casas. 40 é um número importante na tradição judaico-cristã, é o número da espera, mas também do tempo necessário para a experiência espiritual (os 40 anos passados pelo povo de Israel no deserto, os 40 dias da tentação de Jesus). Baseado no Número de Ouro, que o Companheiro descobre na Estrela Flamejante, o Pavimento Mosaico 5 x 8 poderia figurar vantajosamente no Tapete de Loja do segundo grau.
Finalmente, o Pavimento Mosaico fundado no Teorema de Pitágoras: 9 x 12 = 108 casas. Também aqui podemos considerar outros modelos que mantêm a relação 3-4-5 do triângulo retângulo pitagórico: 3 x 4, 6 x 8, 12 x 16. Mas o mais interessante continua a ser, na nossa opinião, o 9 x 12 = 108, pois estes três números são ricos em significação. O 9, quadrado de 3, aparece frequentemente na maçonaria a partir do grau de Mestre. É nomeadamente o número da bateria do grau e o número dos Mestres que partiram à procura dos restos mortais de Hiram. O 12 é um número maior da tradição judaico-cristã, simbolizando a plenitude e a realização (as 12 Tribos de Israel, os 12 Apóstolos). Finalmente, a simbólica do número 108 vem-nos mais da Índia. Simboliza a realização, a libertação, o fim do caminho iniciático. Os principais deuses hindus, assim como o Buda, têm 108 nomes, existem 108 Upanishads, 108 Asanas (posturas) de yoga, 108 contas no rosário budista, 108 paixões no budismo… Do ponto de vista budista, o 108 simboliza o alcance do samādhi (o recolhimento, isto é, o mais alto nível de consciência da meditação), após ter superado as 108 paixões. É no Tapete de Loja do terceiro grau que poderia figurar o Pavimento Mosaico 9 x 12 = 108, pois o Mestre passa pela morte simbólica para ultrapassar as paixões representadas pelos três maus Companheiros.
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