O que é o Lacs d’Amour na maçonaria?
Antes de explorar as suas origens e significados, é preciso compreender o que é, concretamente, o Lacs d’Amour. No plano operativo, trata-se de um simples nó em oito feito numa única corda. Na linguagem marítima, é também chamado de nó flamengo. A sua particularidade reside na sua mobilidade: pode ser desapertado e deslocado ao longo da corda, o que o torna uma ferramenta prática e adaptável.
Este uso não é anedótico. Os construtores medievais utilizaram-no para elaborar um instrumento fundamental: a corda de treze nós. Graças a este dispositivo, os operários podiam dividir um comprimento em doze intervalos iguais, reproduzindo assim a proporção 3-4-5 do triângulo retângulo. Este simples pedaço de corda tornava-se, assim, um meio de traçar o ângulo reto, indispensável para a edificação de um muro estável ou de um templo harmonioso. Três operários eram suficientes: um segurava as extremidades, o segundo o quarto nó, o terceiro o oitavo. Ao esticar a corda, surgia então uma figura perfeita, diretamente derivada do teorema de Pitágoras.
Figuras geométricas que se podem realizar com a corda de treze nós.
Por trás da aparente simplicidade do nó, descobrimos uma ferramenta de alta precisão. O Lacs d’Amour liga, desde logo, dois mundos: o do trabalho concreto dos construtores e o da geometria simbólica. Este nó, que encontramos hoje nos adornos maçónicos, recorda simultaneamente a arte do construtor e a busca espiritual do iniciado, para quem o ângulo reto permanece o fundamento de todo o edifício interior.
Origens heráldicas e religiosas do Lacs d’Amour na maçonaria
O termo Lacs d’Amour não é de origem maçónica. Vem do vocabulário heráldico, essa arte subtil que codificava o brasão das famílias nobres e dos Estados europeus. Encontramos este motivo nomeadamente nas descrições heráldicas da Saboia e da Bretanha, onde assume o nome de nó de Saboia ou nó de Bretanha.
Brasão de Amadeu VI de Saboia, dito “O Conde Verde” (1334-1383), fundador em 1364 da Ordem da Anunciada, à qual conferiu um colar feito de Lacs d’amour.
Mas de onde vem esta escolha simbólica? A heráldica parece ter querido prestar homenagem a uma tradição religiosa: a dos Franciscanos, então chamados Cordeliers, discípulos de São Francisco de Assis. Estes religiosos usavam à cintura uma corda com três nós, lembrando os seus votos de pobreza, castidade e obediência. A caridade ardente de Francisco, a sua dedicação e o seu amor universal marcaram tão profundamente os espíritos que o motivo foi associado à ideia de «amor». É assim que, na linguagem heráldica, se começou a falar de Lacs d’Amour.
Convém esclarecer uma confusão frequente: “lacs” — com um s mesmo no singular — não remete para um lago, mas vem do latim laqueus, que significa corda, laço, atilho. Esta velha palavra francesa, caída em desuso, subsiste apenas no seu diminutivo “lacet” (atacador).
Assim, muito antes de ser adotado pela maçonaria, o Lacs d’Amour já possuía uma rica dimensão: laço heráldico, homenagem religiosa, símbolo de apego e de fraternidade. Era, ao mesmo tempo, um sinal de pertença nobiliárquica e uma evocação espiritual, o que o predestinava a entrar mais tarde no universo maçónico.
O Lacs d’Amour na maçonaria no século XVIII
Foi durante o século XVIII que o Lacs d’Amour entrou no universo maçónico. Especialmente em França, onde a maçonaria, inicialmente importada de Inglaterra, adquiriu rapidamente uma coloração própria, marcada pelo espírito aristocrático, letrado e simbolista das lojas da época. As ferramentas dos construtores já não eram utilizadas para trabalhar a pedra: tornavam-se alegorias destinadas a instruir o iniciado na linguagem dos símbolos.
Os maçons franceses, frequentemente oriundos da nobreza ou da alta burguesia, familiares dos códigos heráldicos, escolheram então nomear os nós da corda maçónica com o termo prestigioso que conheciam: Lacs d’Amour. Esta escolha traduzia menos uma referência à caridade franciscana do que uma vontade de expressar, num vocabulário nobre, o ideal de amor fraternal.
A corda que rodeia a loja, adornada com estes nós, torna-se assim um símbolo visível da unidade dos membros. Sublinha-se mesmo um paralelo gestual: os Lacs d’Amour evocam a posição dos braços cruzados durante a Cadeia de União, esse momento ritual em que todos os irmãos se ligam uns aos outros num círculo vivo.
Por esta transferência semântica, um motivo operativo e heráldico torna-se plenamente maçónico. A partir desta época, o Lacs d’Amour encarna nas lojas francesas um valor central: a fraternidade que ultrapassa as diferenças sociais e une os iniciados numa mesma cadeia espiritual.
Simbolismo espiritual e maçónico do Lacs d’Amour na maçonaria
O Lacs d’Amour não é apenas um motivo decorativo: tornou-se, na maçonaria, um dos símbolos mais eloquentes da fraternidade. Cada nó recorda ao iniciado que ele está ligado aos outros, como um fio que une as pedras de um mesmo edifício. Exprime simultaneamente a união, a concórdia e a fraternidade que devem reinar entre todos os maçons.
Quando é representado na corda que rodeia a loja, o Lacs d’Amour materializa um círculo protetor. Não encerra: reúne. Não separa: liga. O seu significado ganha toda a sua força no momento ritual da Cadeia de União, onde os irmãos, de braços cruzados, formam juntos um anel vivo. O nó, frequentemente visível nos adornos, junta-se então ao gesto concreto dos corpos, e desta união nasce o que alguns chamam de egrégora, essa força espiritual coletiva que ultrapassa cada indivíduo.

Tapete de loja rodeado por lacs d’amour.
Mas este símbolo espiritual permanece em coerência com o uso operativo do nó. Na corda de treze nós, três operários tinham de cooperar para traçar um ângulo reto perfeito. A união dos gestos produzia a exatidão da figura. Assim, da ferramenta operativa à significação simbólica, a mensagem permanece a mesma: sem união, não há edifício verdadeiro; sem concórdia, não há harmonia.
O Lacs d’Amour na maçonaria encarna, portanto, ao mesmo tempo uma memória dos construtores e uma exigência para os iniciados: construir juntos, no equilíbrio e na fraternidade, um templo digno de carregar a Luz.
O Lacs d’Amour na maçonaria nos adornos e objetos rituais
O uso do Lacs d’Amour não se limita à corda simbólica que rodeia a loja. Com o tempo, este motivo encontrou lugar numa multidão de adornos e objetos maçónicos, tornando-se um dos ornamentos mais reconhecíveis da arte maçónica.
Encontramo-lo primeiro nos tapetes de loja, nomeadamente nos dois primeiros graus, onde pontua a borda e recorda que o espaço ritual é circunscrito pelo laço fraternal. Nos aventais também, pode aparecer em bordado, sublinhando que a dignidade maçónica se inscreve num quadro de fraternidade.
Os cordões e colares longos adornam-se também com Lacs d’Amour, testemunhando que os cargos e funções, quaisquer que sejam as suas responsabilidades, permanecem unidos numa mesma cadeia. Mais tarde, o ornamento difundiu-se em objetos mais modestos mas igualmente eloquentes: luvas, chapéus, pins, medalhas ou joia de loja.
Esta proliferação não é anedótica: ilustra a permanência de um símbolo que ultrapassa os usos operativos para entrar plenamente na cultura visual da maçonaria. O Lacs d’Amour atua como um lembrete discreto mas constante do ideal maçónico: fraternidade, concórdia e construção comum.
Ainda hoje, quer seja bordado num avental, gravado numa joia ou impresso num tapete, sinaliza ao maçom que ele nunca caminha sozinho. Cada vez que o olho encontra este motivo, é o convite para recordar que a iniciação só tem sentido se for vivida na união.
O Lacs d’Amour na maçonaria como geometria sagrada da união
O Lacs d’Amour não é apenas um motivo ornamental: a sua própria forma sugere uma profundidade simbólica. Realizado a partir de um único fio de corda, desenha um laço fechado que evoca a ideia de infinito. Muitos veem nele uma recordação do lemniscata (∞), esse sinal matemático da eternidade, que exprime tanto a continuidade do laço maçónico como a abertura para uma dimensão espiritual.
No seu uso operativo, o nó só tinha valor através da ação coordenada de três companheiros: um segurando as extremidades da corda, os outros dois segurando os nós intermédios para formar um triângulo perfeito. Desta união de gestos nascia a exatidão do ângulo reto. Transposto para a ordem simbólica, a mensagem é límpida: apenas a harmonia das vontades permite construir um edifício sólido, seja ele material ou interior.
O Lacs d’Amour exprime, portanto, uma geometria sagrada. Não se trata simplesmente de um laço físico, mas de uma figura que revela uma lei espiritual: a união gera o equilíbrio, a concórdia funda a harmonia. Cada nó torna-se o sinal visível de um princípio invisível: o acordo dos corações e dos espíritos.
Assim, contemplar um Lacs d’Amour é recordar que a maçonaria não é a adição de percursos individuais, mas uma construção comum. O templo interior só se edifica na medida em que cada maçom aceita unir-se aos outros, a fim de tenderem juntos para a retidão e a Luz.
Conclusão – O Lacs d’Amour na maçonaria, herança viva da fraternidade
O Lacs d’Amour na maçonaria ilustra maravilhosamente a passagem de uma ferramenta operativa para um símbolo espiritual. Nascido do gesto simples do nó em oito, transmitido pela heráldica e pela tradição religiosa, encontrou nas lojas do século XVIII um significado novo: o da união fraternal. Ainda hoje, quer adorne um avental, um tapete ou uma joia, recorda a cada maçom que a construção do Templo só é possível em conjunto. Em cada Lacs d’Amour entrelaçam-se a memória dos construtores e a exigência viva da fraternidade maçónica.
Por Ion Rajolescu, redator-chefe de Loja — ao serviço de uma palavra maçónica justa, rigorosa e viva
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1. O que é o Lacs d’Amour na maçonaria?
É um nó em oito herdado dos construtores e da heráldica, tornado símbolo de união e fraternidade nas lojas.
2. Por que é que a palavra “lacs” leva um “s” no singular?
Em francês, “lacs” vem do latim laqueus, que significa corda ou laço. Particularidade: escreve-se sempre com um “s”, mesmo no singular, mas pronuncia-se “la”. Este termo antigo sobrevive hoje sobretudo no seu diminutivo “lacet”.
3. Quais são as origens do Lacs d’Amour?
Encontramo-lo no brasão heráldico, nomeadamente na Saboia e na Bretanha, bem como na tradição franciscana.
4. Quando entrou na maçonaria?
No século XVIII, quando as lojas francesas adotaram este motivo para expressar o amor fraternal e a unidade dos maçons.
5. Qual é a sua ligação com a corda de treze nós?
O nó em oito servia para marcar as divisões regulares da corda utilizada para traçar ângulos retos perfeitos.
6. O que simboliza o Lacs d’Amour?
Encarna a união, a concórdia e a fraternidade necessárias à construção comum do Templo espiritual.
7. Onde o encontramos nos adornos maçónicos?
Nos aventais, tapetes de loja, cordões, luvas, chapéus, joias e outros ornamentos simbólicos.
8. Tem um significado religioso?
Sim, na origem, em ligação com os Franciscanos chamados Cordeliers; na maçonaria, exprime sobretudo o amor fraternal.
9. O Lacs d’Amour evoca o infinito?
A sua forma recorda o lemniscata (∞), símbolo de eternidade, de continuidade e de harmonia espiritual.
10. O que recorda aos maçons?
Que nunca constroem sozinhos, mas sim juntos, na união e na concórdia.
Encontre aqui a transcrição completa do episódio para aqueles que preferem a leitura ou desejam aprofundar as trocas.
Podcast – O Lacs d’Amour na maçonaria
Hoje, proponho-lhe mergulhar num símbolo discreto mas essencial da maçonaria: o Lacs d’Amour. À primeira vista, não é mais do que um nó de corda. No entanto, a sua história e o seu significado fazem dele um fio condutor que liga os construtores medievais, a heráldica nobiliárquica, as tradições religiosas e o universo simbólico das lojas.
O Lacs d’Amour é, antes de tudo, um nó em oito. Nos usos marítimos, conhecemo-lo como o nó flamengo. A sua particularidade: é móvel. Pode ser desapertado e deslocado. Os antigos construtores utilizaram-no para criar uma ferramenta fundamental: a corda de treze nós. Graças a ela, podiam dividir um comprimento em doze intervalos iguais e traçar um ângulo reto perfeito, segundo o teorema de Pitágoras. Três companheiros eram suficientes: um segurando as extremidades da corda, os outros dois segurando os nós intermédios. Juntos, obtinham a retidão indispensável para o edifício harmonioso.
Mas o termo Lacs d’Amour vem, na realidade, da heráldica. Encontramo-lo no brasão das armas de Saboia e da Bretanha, onde é chamado de nó de Saboia ou nó de Bretanha. Este motivo prestava homenagem aos Franciscanos, então chamados Cordeliers. O seu cinto de corda, atado com três nós, recordava os seus votos de pobreza, castidade e obediência. A caridade ardente de São Francisco de Assis fez nascer a expressão: Lacs d’Amour. Aqui, “lacs” escreve-se sempre com um “s”, mesmo no singular, pois vem do latim laqueus, significando corda ou laço.
No século XVIII, os maçons franceses adotaram este símbolo. Frequentemente oriundos da nobreza, eram familiares da linguagem heráldica. O Lacs d’Amour tornou-se então o ornamento da corda que rodeia a loja. Já não se fazia referência à caridade de São Francisco, mas ao amor fraternal que une os maçons. E aproximaram-se estes nós da posição dos braços cruzados durante a Cadeia de União.
O símbolo desdobrou-se depois em numerosos adornos: tapetes de loja, aventais, cordões, luvas, chapéus, joias. De cada vez, recorda que a maçonaria não é uma soma de individualidades, mas uma fraternidade viva. O nó torna-se o sinal visível da união e da concórdia.
Podemos mesmo ver no Lacs d’Amour uma figura de infinito, próxima do lemniscata. Como se este nó dissesse que a fraternidade maçónica é chamada a ultrapassar o tempo e o espaço, para inscrever cada iniciação numa continuidade espiritual.
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