O avental maçónico: entre tradição e transmissão

O avental maçónico, uma herança operativa?

Tal como as luvas, que já mencionámos, o avental é, naturalmente, uma peça de vestuário de proteção utilizada em inúmeras profissões. Não é, portanto, de estranhar que o encontremos entre os acessórios do franco-maçom. Contudo, o avental maçónico nem sempre teve a importância que adquiriu hoje na franco-maçonaria, e o seu uso pelos maçons operativos e pelos pedreiros está longe de ter sido sistemático.

As ilustrações e iluminuras medievais que mostram construtores representam-nos raramente vestidos com aventais. E as “Old Charges” (Antigos Deveres, compilações dos regulamentos dos maçons operativos ingleses, redigidas entre os séculos XIV e XVIII) não fazem qualquer alusão ao mesmo. Do lado francês, o Companheirismo pouco fala sobre o assunto e, desde o renascimento do companheirismo no século XIX, apenas os Companheiros Tintureiros usam um avental simbólico.

Os documentos bastante raros que descrevem os usos da Maçonaria da “Palavra de Maçom” (proto-franco-maçonaria surgida na Escócia no início do século XVII) e da primeira franco-maçonaria especulativa inglesa do século XVII também não mencionam aventais. A descrição mais antiga da receção de um franco-maçom inglês, que se encontra na “Natural History of Staffordshire” de Robert Plot (1686), menciona o uso de luvas, mas não de um avental maçónico. E, de qualquer modo, os aventais maçónicos mais antigos que conhecemos datam apenas do século XVIII.

Uma conclusão impõe-se. O avental era de facto utilizado pelos maçons operativos para a realização de certas tarefas. Mas não parece que esse avental tivesse uma utilização ritual, honorífica ou simbólica, nem que fosse objeto de uma entrega solene durante a cerimónia de receção de um novo maçom. E é bastante lógico. Se acreditarmos nos documentos antigos, eram necessários pelo menos três anos de trabalho antes de ser recebido como Aprendiz Entrado. O novo Aprendiz não descobria, portanto, o avental durante a sua receção; já o tinha usado por diversas vezes. Então, de onde vem o avental maçónico, enquanto ornamento ritual específico do franco-maçom?

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O avental maçónico, uma invenção da franco-maçonaria moderna

Vários indícios históricos parecem indicar que o uso de um avental simbólico durante os trabalhos maçónicos é uma invenção da franco-maçonaria moderna, ou seja, da franco-maçonaria iniciada pela Grande Loja de Londres, fundada segundo a tradição oficial em 1717, mas mais provavelmente em 1721.

A primeira menção ao uso ritual do avental maçónico aparece em 1723, num catecismo simbólico que se costuma chamar “A Mason’s Examination”. É sobretudo o contexto de publicação deste documento que é importante para o assunto que nos ocupa. Este catecismo estava anexo à carta aberta que um franco-maçom inglês, indignado com as inovações rituais da Grande Loja de Londres, tinha publicado a 13 de abril de 1723 no periódico “The Flying Post, or the Post Master”. O autor da carta especifica que “os Membros [das Lojas] não serão tentados, como loucos ou crianças, a divulgar as Lições e Instruções dadas pelos seus Mestres e Vigilantes”, e publica de seguida este catecismo para ilustrar a malícia dos inovadores. Isto significa que, para um franco-maçom fiel aos antigos usos da franco-maçonaria especulativa inglesa, o conteúdo deste catecismo não era autenticamente maçónico e podia, portanto, ser divulgado sem trair o juramento dos franco-maçons. Ora, o que menciona este catecismo? Que, antes de ser recebido franco-maçom, o recipiente oferecia a todos os presentes luvas de homem e de mulher, bem como aventais de couro.

A presença de um avental maçónico ritual faz, portanto, provavelmente parte das inovações contra as quais se insurgia o autor da nossa carta e que ele se sentia, por isso, livre de divulgar. O resto do catecismo descreve numerosos segredos maçónicos que nos parecem perfeitamente corretos, mas que são, na verdade, muito influenciados pelos usos escoceses (as palavras Maughbin, Boaz e Jakin). Isto levaria a supor que os “Modernos” da Grande Loja de Londres tinham adotado a totalidade ou parte dos usos escoceses (sem dúvida sob a influência de figuras como Anderson) e que esta forma de franco-maçonaria diferia completamente dos usos da antiga franco-maçonaria especulativa inglesa, da qual, na verdade, praticamente nada se sabe. Será que o avental maçónico viria da Escócia, mesmo que os raros testemunhos escritos da Maçonaria escocesa do século XVII não o mencionem? É possível, sem que se possa afirmar com certeza. Estamos, contudo, mais inclinados a pensar que todos os acréscimos da Grande Loja de Londres não eram empréstimos à tradição maçónica escocesa, mas que alguns eram realmente inovações, entre as quais, talvez, o uso do avental maçónico.

Incidentemente, a famosa carta de 1723 traz um indício a favor da criação da Grande Loja de Londres em 1721 e não em 1717. Indignar-se com uma novidade que tem apenas dois anos é ainda compreensível. A informação circulava menos rapidamente nessa época e não se sabe onde residia o autor da carta. Mas se a Grande Loja data de 1717, não poderemos deixar de nos espantar com um atraso de cinco anos para expressar um desacordo!

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Posteridade do avental maçónico

Após 1723, as fontes inglesas “Modernas” mencionam todas o avental maçónico, a começar pelo “Masonry Dissected” de Samuel Pritchard, publicado em 1730. O mesmo aconteceu no continente, onde a franco-maçonaria da Grande Loja de Londres se difundiu a partir dos anos 1725. Os dois rituais manuscritos mais antigos em língua francesa (o Manuscrito de Berna e o Manuscrito Luquet) conhecem o uso do avental maçónico, e o mesmo acontece com todas as divulgações dos anos 1740-1760.

Mas estas fontes dizem respeito apenas à tradição da Grande Loja dos “Modernos” e das Lojas fundadas sob a sua instigação no continente. O que dizer dos franco-maçons ingleses que tinham permanecido fiéis aos antigos usos e que tinham acabado por se constituir, em 1751, numa Grande Loja rival, dita dos “Antigos”? É forçoso constatar que, nos anos 1750, tendo-se provavelmente alinhado com os “Modernos” neste ponto, utilizavam também aventais maçónicos, como testemunham, por exemplo, as ilustrações que representam Laurence Dermott (a alma da Grande Loja dos “Antigos” e o autor das suas Constituições, “Ahiman Rezon”) vestido com um avental maçónico. E a divulgação “The Three Distinct Knocks” de 1760, que revela o ritual de uma Loja de tradição “Antiga”, menciona igualmente o avental maçónico.

Mesmo que provavelmente não tenha sido utilizado por todos os franco-maçons na origem, o avental maçónico impôs-se, portanto, universalmente, para se tornar um dos sinais mais característicos do franco-maçom, em todo o mundo.

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