1. As origens bíblicas das Colunas
As duas Colunas na maçonaria
têm a sua origem no relato da construção do Templo de Salomão. Encontramo-las no Primeiro Livro dos Reis (7, 13–22) e no Segundo Livro das Crónicas (3, 15–17). Segundo estes textos, o rei
Salomão mandou erigir duas Colunas de bronzeà entrada do santuário. O Primeiro Livro dos Reis especifica que foram obra de um artesão chamado Hiram, enviado pelo rei de Tiro. Uma foi chamada Yakîn (ou Jakin nos rituais maçónicos), a outra Bo‛az (frequentemente transcrito Boaz ou Booz).

Duas colunas, Grande Templo de Londres
As dimensões diferem ligeiramente segundo as versões bíblicas, mas o seu lugar é claro: erguidas no exterior, elas emolduravam a entrada do Temploorientada para leste, acolhendo o sol nascente. Yakîn situava-se à direita, Bo‛az à esquerda — desde que se olhe segundo a orientação hebraica, o que não deixa de ter consequências nos rituais.
2. Direita ou esquerda? Norte ou sul? O enigma da orientação
A posição das duas Colunas na maçonaria alimentou durante muito tempo debates e incertezas. À direita ou à esquerda? Ao norte ou ao sul? Tudo depende da orientação que se adota — e é aí que a questão se complica.
Para nós hoje, o norte é a direção de referência. É o topo do mapa, o ponto fixo. Mas na Bíblia hebraica, é o leste — o nascente — que dá a orientação. A própria palavra testemunha isso: “orientar-se” é virar o olhar para
o leste. A partir daí, a direita torna-se o sul, e a esquerda o norte. Em hebraico, yamîn, que designa a direita, significa também o meio-dia.
Esta rotação esclarece as divergências
rituais. Se adotarmos a orientação
hebraica, a Coluna Yakîn está de facto a sul, e Bo‛az a norte. São os ritos ditos “Antigos” que guardaram o vestígio: o Rito Escocês Antigo e Aceite, Emulação, York… Pelo contrário, os ritos ditos “Modernos”, como o Rito Francês ou o Regime Escocês Retificado, operaram uma inversão voluntária — sem dúvida para se distinguirem dos Antigos, tornar inoperantes as palavras de passe provenientes das divulgações e identificar com mais segurança os visitantes indesejados.
3. Loja ou Templo? A questão do local maçónico
Uma vez clarificada a posição das Colunas, coloca-se outra questão: a Loja maçónica reproduz o Templo de Salomão ? À primeira vista, a correspondência parece natural. Mas, olhando mais de perto, surge uma desfasagem.
O Templo de Salomão estava orientado de leste para oeste. Entrava-se por leste, avançando em direção a oeste. Nesta configuração, a Coluna Yakîn, situada a sul, encontra-se à esquerda de quem entra; Bo‛az, a norte, está à sua direita. Esta disposição está em conformidade com os textos bíblicos.

O templo de Salomão
A Loja maçónica, por sua vez, está orientada no sentido contrário: de oeste para leste. Entra-se por oeste, dirigindo-se para o Oriente. Se mantivermos as Colunas na sua orientação bíblica — Yakîn a sul, Bo‛az a norte — então quem entra na Loja vê Yakîn à sua direita, e Boaz à sua esquerda. É a configuração dos ritos ditos Antigos.
Mas é preciso constatar: Loja e Templo não se sobrepõem. E isso não é, sem dúvida, um erro. Alguns rituais antigos respondem à pergunta “Onde se realizou a primeira Loja?” com esta frase: “No átrio do Templo de Salomão”. Não é o lugar sagrado, mas o espaço da obra. O Templo ainda está por construir. A Loja não é a sua réplica, mas o limiar… ou o espelho.
4. A Palavra de Maçom: uma transmissão fragmentária
Uma das fontes principais da maçonaria especulativa é esta forma híbrida que chamamos de Maçonaria da Palavra de Maçom, atestada na Escócia desde a viragem do século XVII. É aí, num quadro ainda operativo, que vemos aparecer pela primeira vez membros admitidos sem serem do Ofício: chamam-lhes Maçons Aceites. Os seus nomes figuram nos registos das lojas escocesas desde 1600.
Estes Maçons Aceites eram geralmente notáveis: magistrados, proprietários, por vezes ministros do culto. Traziam a sua influência ou o seu apoio financeiro às lojas. Mas os Maçons de ofício não lhes transmitiam a totalidade do seu saber. Comunicavam-lhes, durante uma cerimónia ritual, uma palavra de reconhecimento: a “Palavra de Maçom”. O seu conteúdo exato escapa-nos, mas uma coisa é certa: incluía o nome das duas Colunas.

As Duas Colunas
Este fragmento basta para fazer a ligação. Pois transmitir os nomes de Yakîn e Bo‛az, era já fazer existir um espaço
simbólico. Não havia ainda sistema, nem grau, nem arquitetura iniciática. Mas havia um limiar, uma palavra, uma passagem.
5. A lenda esquecida das duas Colunas
A maçonaria
especulativa construiu o seu simbolismo sobre as Colunas bíblicas do Templo de Salomão. No entanto, deixou na sombra outra tradição, muito mais antiga: a lenda das duas Colunas de salvaguarda. Encontramo-la nos Antigos Deveres — esses textos redigidos entre o final do século XIV e o século XVIII, que misturam regulamentos operativos e relato mítico das origens.
Segundo esta lenda, os filhos de Lameque — Yabal, Yuval, Tubal-Caim e Naama — pressentiam uma destruição do mundo pelo fogo ou pela água. Para preservar os saberes dos ofícios, gravaram os seus segredos em duas Colunas: uma de mármore, para resistir ao fogo; a outra de tijolo, para sobreviver à água. Esta tradição liga-se a uma fonte judaica mais antiga, relatada por Flávio
Josefo no século I, na qual é Enoque quem ergue duas Colunas para preservar a ciência.
É surpreendente que esta lenda, bem conhecida dos Maçons operativos ingleses, não tenha sido retomada pelos primeiros
Maçons
especulativos. Poderia ter enriquecido o simbolismo das duas Colunas
do
Templo. Apenas encontramos raros ecos, por exemplo em certas versões do décimo terceiro grau do Rito Escocês Antigo e Aceite. O resto perdeu-se — ou calou-se.
Conclusão – Duas Colunas, mil olhares
As duas Colunas na maçonaria não entregam um ensinamento fixo. A sua presença atravessa as eras, mas o seu sentido foge assim que o julgamos captar. Ora guardiãs
do
Templo, ora marcos
espaciais, ora símbolos
transmitidos
por
uma
palavra, elas não param de se deslocar nos rituais, nos graus, nas memórias.
Vemo-las, nomeamo-las, atravessamo-las. Mas consoante o eixo onde nos situamos, consoante a Loja onde entramos, consoante o rito que seguimos, elas mudam de lugar. Talvez seja isso, precisamente, que elas ensinam. Que entre Boaz e Jakin, não há uma verdade a reencontrar — mas uma passagem a viver.
Por Ion Rajolescu, editor-chefe de Loja — ao serviço de uma palavra maçónica justa, rigorosa e viva.
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FAQ – As Colunas na maçonaria
1. O que representam as duas Colunas na maçonaria?
Simbolizam as Colunas do Templo de Salomão mencionadas na Bíblia, frequentemente interpretadas como marcos de estabilidade, de passagem e de dualidade no percurso iniciático.
2. Como se chamam as Colunas maçónicas?
Tradicionalmente, ostentam os nomes hebraicos Boaz (ou Booz) e Jakin, provenientes do Primeiro Livro dos Reis e do Segundo Livro das Crónicas.
3. Por que razão algumas lojas invertem as Colunas?
Esta inversão provém de uma divergência antiga entre os ritos ditos Antigos e os ritos ditos Modernos, ligada a questões de orientação simbólica e de reconhecimento ritual.
4. Qual a Coluna atribuída aos Aprendizes?
Depende do rito. Nos ritos Antigos, os Aprendizes são colocados na Coluna Boaz; nos Modernos, na Coluna Jakin, mas, em qualquer dos casos, trata-se do Norte.
5. A Loja é uma reprodução do Templo de Salomão?
Não. Segundo vários rituais antigos, a Loja representa antes o átrio do Templo, isto é, o local de trabalho dos construtores, e não o espaço sagrado em si.
6. O que é a “Palavra de Maçom” e que ligação tem com as Colunas?
A Palavra de Maçom, transmitida em certas lojas escocesas desde o século XVII, continha nomeadamente os nomes das duas Colunas. Era uma palavra de reconhecimento.
7. Existe uma lenda maçónica sobre as Colunas?
Sim. Os Antigos Deveres relatam uma lenda segundo a qual os filhos de Lameque ou Enoque teriam gravado os saberes antigos em duas Colunas para os preservar da destruição do mundo.
8. Por que razão as Colunas não estão sempre do mesmo lado?
Porque os ritos maçónicos nem todos mantiveram a mesma orientação. Nos ritos ditos Antigos, Jakin é colocada à direita e Boaz à esquerda quando se entra na Loja. Os ritos Modernos inverteram esta disposição, para se distinguirem dos Antigos e impedir que se reconhecesse um visitante apenas graças às antigas palavras de passe.
9. Podemos ver Colunas em todas as lojas maçónicas?
Sim, encontram-se duas Colunas na maioria das lojas: frequentemente dispostas à entrada, por vezes sob a forma de colunetas nos altares dos Primeiro e Segundo Vigilantes, ou figuradas no tapete de loja. A sua forma e localização variam consoante os ritos, mas a sua presença simbólica está sempre assegurada.
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